O iShares Bitcoin Trust (IBIT) da BlackRock agora detém cerca de 774.000 BTC, aproximadamente 3,7% de todo o Bitcoin existente, com mais de US$ 70 bilhões em ativos sob gestão no início de 2026. No entanto, durante o primeiro ano, o IBIT operou com uma limitação estrutural que ETFs de commodities tradicionais como GLD ou IAU nunca enfrentaram. Sempre que um participante autorizado criava ou resgatava cotas, era necessário converter entre Bitcoin e dinheiro, gerando eventos tributáveis, deslizamento de mercado e custos extras que acabavam sendo repassados ao cotista.
Isso mudou em 29 de julho de 2025, quando a SEC aprovou a criação e resgate in-kind para ETPs de Bitcoin e Ethereum. Essa decisão alinhou os ETFs de cripto ao funcionamento dos ETFs de commodities tradicionais, trazendo impactos importantes em rastreamento, tributação e taxas para quem investe em fundos de cripto.
Como funciona a criação e resgate de ETFs
A maioria dos investidores compra cotas de ETF em bolsa, da mesma forma que ações. Porém, existe um processo nos bastidores para manter o preço de mercado do ETF alinhado ao valor dos ativos que ele representa.
Participantes autorizados (APs) — geralmente grandes instituições — podem criar novas cotas de ETF entregando os ativos subjacentes ao fundo ou resgatar cotas existentes devolvendo-as em troca desses ativos. Quando o preço do ETF sobe acima do valor patrimonial líquido (NAV), os APs criam novas cotas para captar a diferença; quando está abaixo, resgatam cotas para fechar o gap. Esse mecanismo de arbitragem mantém o preço do ETF próximo ao valor de seus ativos.
Nos ETFs de ouro, por exemplo, esse processo sempre envolveu a movimentação direta de barras de ouro: o AP entrega ouro ao fundo e recebe cotas, sem conversão em dinheiro, sem evento tributável e sem impacto de mercado. Esse modelo — criação e resgate in-kind — é padrão há décadas para ETFs de commodities.
Por que ETFs de Cripto só podiam usar dinheiro até julho de 2025
Quando a SEC aprovou ETFs de Bitcoin à vista em janeiro de 2024, impôs uma restrição inédita para commodities: todas as criações e resgates deveriam ser em dinheiro. O motivo principal era preocupação com a custódia de cripto pelos APs e controles de prevenção à lavagem de dinheiro.
Na prática, a exigência de dinheiro tornava o processo caro e demorado. Para criar novas cotas do IBIT, o AP precisava vender BTC no mercado por dinheiro, transferir esse valor ao fundo e, então, o fundo recomprava BTC. Para resgatar, era o processo inverso. Cada etapa implicava impacto de mercado, custos de spread e geração de ganhos ou perdas de capital tributáveis. Para um fundo com bilhões em fluxo diário, esse atrito aumentava rapidamente, e o fundo era forçado a distribuir ganhos de capital mesmo para cotistas que não venderam nenhuma cota.
Diferenças práticas: Cash-Create vs In-Kind
A diferença entre os modelos está em quantas vezes o ativo subjacente é negociado durante a criação e resgate.
| Característica | Apenas dinheiro (antes de jul/2025) | In-Kind (atual) |
|---|---|---|
| Processo de criação | AP vende BTC por dinheiro, envia ao fundo, fundo recompra BTC | AP entrega BTC diretamente ao fundo |
| Processo de resgate | Fundo vende BTC por dinheiro, envia ao AP | Fundo entrega BTC diretamente ao AP |
| Nº de transações BTC | 2 por criação, 2 por resgate | 0 operações de mercado |
| Evento tributável no fundo | Sim, a cada operação | Não, transferências in-kind não geram tributos |
| Deslizamento de mercado | Presente em cada etapa | Eliminado |
| Acompanhamento do NAV | Spreads maiores devido ao atrito | Arbitragem mais eficiente, spreads menores |
| Modelo dos ETFs tradicionais | Não aplicável | Modelo padrão |
O resumo da tabela é simples: in-kind elimina etapas desnecessárias. O BTC movimenta-se uma vez, sem necessidade de venda e recompra, reduzindo deslizamento, eliminando eventos tributáveis no fundo e conectando melhor o preço do ETF ao valor do Bitcoin.
Quem solicitou e quem se beneficia
A decisão da SEC (Ordem de 29 de julho, Release No. 34-103571) concedeu aprovação acelerada para mudanças nas regras da Nasdaq, Cboe BZX e NYSE Arca, abrangendo produtos da BlackRock (IBIT e iShares Ethereum Trust), Fidelity, ARK 21Shares, VanEck e outros.
Quatro empresas foram nomeadas como participantes autorizados para o processo in-kind do IBIT, incluindo Jane Street, Virtu Americas, JP Morgan Securities e Marex, agora podendo trocar Bitcoin diretamente por cotas do IBIT. Com US$ 70 bilhões em ativos e fluxos diários que chegaram a milhares de BTC (o IBIT adicionou mais de 25.000 BTC em 7 de outubro de 2025), a remoção da etapa de conversão em dinheiro gera economia significativa para todos os cotistas de ETFs de Bitcoin e Ethereum.
O aspecto tributário que muitos ignoram
A eficiência fiscal dos resgates in-kind é um dos maiores diferenciais da estrutura de ETFs, mas os ETFs de cripto não tinham esse benefício no modelo só-dinheiro.
Quando um ETF tradicional faz resgate in-kind, transfere ativos apreciados (neste caso, BTC) diretamente ao participante autorizado, e pela legislação atual, isso não é evento tributável para o fundo. O fundo pode repassar seu BTC de maior custo ao AP, mantendo no fundo os de custo mais baixo, "limpando" ganhos não realizados sem gerar imposto para os cotistas remanescentes.
No modelo só-dinheiro, o fundo era forçado a vender BTC no mercado para gerar dinheiro para resgates, e cada venda gerava ganho tributável. Com tempo, o fundo poderia distribuir ganhos de capital para todos os cotistas, mesmo para quem não vendeu cotas.
Com resgates in-kind, isso diminui bastante. ETFs de ações como o SPY usam esse mecanismo há décadas sem distribuir ganhos de capital, e agora finalmente está disponível também para ETFs de cripto.
Competitividade dos ETFs de Criptomoedas
Antes do in-kind, um argumento válido contra investir em BTC via ETF era o custo adicional: além da taxa de administração (0,25% para IBIT após isenção), havia custos ocultos do processo só-dinheiro e potenciais distribuições de ganhos de capital. A posse direta não tinha esses custos, exceto a taxa de negociação inicial.
O modelo in-kind reduz bastante essa diferença, eliminando custos de deslizamento e diminuindo impactos fiscais, mesmo mantendo a taxa de administração. Para investidores institucionais que necessitam de custódia regulada, o ETF agora compete com a posse direta mesmo após impostos. Para o investidor pessoa física, especialmente em contas previdenciárias que não aceitam BTC direto, o ETF passa a ser uma opção mais eficiente.
Perguntas Frequentes
O que é criação e resgate in-kind em ETFs?
In-kind significa que participantes autorizados entregam ou recebem o ativo subjacente (como BTC) ao criar ou resgatar cotas, sem conversão para dinheiro. Ouro e ações sempre usaram esse modelo. ETFs de cripto foram obrigados a usar só dinheiro até a decisão da SEC em julho de 2025.
Resgate in-kind torna ETFs de Bitcoin isentos de tributação?
Não. O resgate in-kind melhora bastante a eficiência fiscal para quem mantém o investimento por longo prazo. O fundo não realiza ganhos de capital ao processar resgates. O investidor ainda deve imposto quando vende suas cotas com lucro, mas é menos provável receber distribuições de ganhos involuntárias.
Quanto os investidores economizam com in-kind em relação ao modelo só-dinheiro?
A economia vem da eliminação do deslizamento nas operações, redução do impacto fiscal dentro do fundo e de spreads menores na negociação do ETF. Em fundos do porte do IBIT, as economias podem chegar a milhões de dólares anuais somados.
Quais ETFs de cripto suportam in-kind?
A decisão da SEC em julho de 2025 cobre ETFs de Bitcoin e Ethereum à vista listados na Nasdaq, Cboe BZX e NYSE Arca. Inclui produtos da BlackRock, Fidelity, ARK 21Shares, VanEck, Grayscale e outros. Futuras ETPs de commodities digitais, como SOL e XRP, devem já nascer no modelo in-kind.
Conclusão
Criação e resgate in-kind não é novidade: é a estrutura padrão que faz dos ETFs o formato mais eficiente do ponto de vista fiscal no mercado financeiro tradicional, e agora finalmente está disponível para ETFs de cripto.
O resultado prático é melhor acompanhamento do preço de mercado, maior eficiência fiscal (pois o fundo não realiza ganhos a cada resgate) e menor custo total para manter um ETF de cripto em relação à posse direta. Para quem já investe em IBIT, FBTC ou outros ETFs de BTC/ETH à vista, é uma atualização estrutural positiva. Para quem compara ETF e posse direta, a equação de custos mudou de forma relevante.
Este artigo tem propósito exclusivamente informativo e não constitui conselho financeiro ou de investimento. Negociação de criptomoedas envolve riscos relevantes. Sempre realize sua própria análise antes de tomar decisões.






