Em 7 de abril de 2026, registros telefônicos publicados pelo The New York Times e obtidos por promotores federais argentinos mostraram que o presidente Javier Milei realizou sete ligações com o lobista de criptomoedas Mauricio Novelli na noite de 14 de fevereiro de 2025, justamente quando Milei fez uma postagem no X promovendo o token $LIBRA e compartilhando seu endereço de contrato Solana. O token valorizou rapidamente, atingindo um valor de mercado de US$ 4,6 bilhões em menos de uma hora, antes de cair mais de 90%, resultando em perdas estimadas em US$ 251 milhões para cerca de 114.000 carteiras.
Até o momento, Milei não foi formalmente acusado, mas promotores encontraram em um celular de Novelli um rascunho de acordo que previa um pagamento de US$ 5 milhões vinculado ao apoio promocional do presidente. A Câmara dos Deputados reabriu sua comissão de investigação em 8 de abril, convocando autoridades de alto escalão. Veja o que aconteceu, por que o caso ultrapassa fronteiras argentinas e o que sinaliza sobre riscos políticos nos mercados de criptoativos.
O que foi o token Libra e como ocorreu o colapso
O token $LIBRA foi lançado na blockchain Solana em 14 de fevereiro de 2025, criado por uma empresa registrada em Delaware chamada Kelsier Ventures e promovido sob o slogan "Viva La Libertad". A Kelsier Ventures era administrada por Hayden Mark Davis, seu irmão Gideon e o pai Tom, família já envolvida em outros lançamentos de memecoins em Solana.
A proposta afirmava que o token financiaria pequenos negócios e startups na Argentina, buscando legitimação econômica. Após a publicação de Milei no X, o preço disparou de US$ 0,000001 para US$ 5,20 em apenas 40 minutos, com forte adesão de investidores de varejo. Contudo, os fundadores detinham cerca de 70% do suprimento total e, após o pico do preço, iniciaram a retirada de liquidez.
A empresa de análise blockchain Bubblemaps confirmou posteriormente que Davis retirou aproximadamente US$ 100 milhões de liquidez da pool, empregando estratégia similar à utilizada no token $MELANIA semanas antes. O preço caiu de US$ 5,20 para menos de US$ 0,50 em poucas horas. Ao final do dia, 114.000 carteiras registraram perdas que totalizaram US$ 251 milhões, tornando-se um dos maiores escândalos financeiros relacionados a presidentes na história da América Latina.
O que revelam os registros telefônicos e o rascunho de pagamento
O impacto de fevereiro de 2025 foi significativo. Milei inicialmente afirmou que apenas compartilhou informações de um projeto que achou interessante, negando envolvimento financeiro. O Escritório Anticorrupção da Argentina o isentou, e o caso parecia resolvido.
Posteriormente, promotores apreenderam o celular de Novelli.
Uma análise forense do aparelho revelou dois pontos críticos: as sete ligações entre Milei e Novelli ocorreram na noite do lançamento, coincidindo com a postagem promocional e a valorização do token. O conteúdo das ligações não foi divulgado, mas o momento contradiz a versão inicial de Milei de mero conhecimento casual.
O segundo ponto é um rascunho de acordo encontrado no celular de Novelli, datado três dias antes do lançamento. O documento, endereçado a "H" (presumidamente Hayden Davis), detalha um pagamento de US$ 5 milhões em três parcelas. A primeira, de US$ 1,5 milhão, seria um adiantamento. A segunda, também de US$ 1,5 milhão, dependia de Milei nomear Davis como conselheiro publicamente. A última, de US$ 2 milhões, previa a assinatura de um contrato de consultoria exclusiva entre a Kelsier Ventures e o governo argentino. Não há confirmação se algum pagamento foi realizado.
As consequências políticas na Argentina
A aprovação de Milei caiu para 36,4% em março de 2026, uma queda de cinco pontos em relação a fevereiro e o menor nível desde o início do mandato, segundo a Bloomberg. Uma pesquisa citada pela Cointelegraph mostrou que 57% dos argentinos afirmaram não confiar mais no presidente, apontando o escândalo do Libra e o desemprego crescente como principais fatores.
A resposta política se intensificou. Parlamentares da oposição apresentaram pedidos de impeachment em fevereiro de 2025, logo após o colapso inicial. Esses pedidos foram arquivados à época, mas as novas evidências os reativaram. Em 8 de abril de 2026, a Câmara dos Deputados reabriu formalmente a investigação e começou a emitir intimações. Milei tentou dissolver a unidade de investigação por meio do Decreto 332/2025, medida que críticos consideram tentativa de obstrução.
O arcabouço jurídico argentino torna o impeachment presidencial difícil, exigindo maioria de dois terços na Câmara e julgamento no Senado. A coalizão de Milei, La Libertad Avanza, mantém número suficiente de cadeiras para barrar a destituição. Ainda assim, o desgaste político avança, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando.
Por que o caso importa fora da Argentina
O escândalo do Libra vai além da política argentina, pois se insere em três tendências que afetam todo investidor de criptoativos:
Endossos presidenciais movimentam mercados com mais rapidez que influenciadores. Quando um chefe de Estado promove um token, a percepção de legitimidade é muito maior. Investidores de varejo que compraram após a postagem não estavam apostando em um lançamento qualquer, mas sim em uma possível iniciativa oficial. Isso altera a percepção de risco de milhares de pessoas que normalmente evitariam memecoins.
A reação regulatória a escândalos políticos pode cruzar fronteiras. O regulador de valores mobiliários do Brasil (CVM) já citou o caso Libra em propostas para endurecer regras de divulgação de criptoativos. O regulamento MiCA da União Europeia, efetivo desde o final de 2024, proíbe arranjos promocionais não divulgados como o descrito no acordo. Se houver condenação ou denúncia formal na Argentina, outros países podem usar o caso como base para reforçar a fiscalização.
O padrão de insiders retirando liquidez enquanto investidores de varejo sofrem perdas não é exclusivo do token Libra. Davis aplicou estratégia similar com o $MELANIA semanas antes, segundo análise da Bubblemaps. O modelo de lançar um token, obter endosso de alto perfil e retirar liquidez no topo tornou-se recorrente. A diferença neste caso é que o endossante era um presidente.
Perguntas frequentes
Milei lucrou pessoalmente com o colapso do token Libra?
Não há confirmação de pagamentos recebidos por Milei, mas o rascunho de acordo encontrado no celular de Novelli prevê US$ 5 milhões vinculados à promoção. A investigação segue em andamento, e Milei é considerado pessoa de interesse, não réu. As sete ligações na noite do lançamento sugerem envolvimento além do alegado inicialmente.
Quanto os investidores perderam no colapso do token Libra?
Aproximadamente US$ 251 milhões foram perdidos em 114.000 carteiras após o colapso do token, que passou de US$ 4,6 bilhões a quase zero em poucas horas. Hayden Davis teria retirado cerca de US$ 100 milhões de liquidez, e insiders detinham cerca de 70% do suprimento antes das vendas.
Milei pode ser efetivamente destituído devido ao escândalo Libra?
O impeachment depende de maioria de dois terços na Câmara dos Deputados e julgamento no Senado. A coalizão de Milei tem votos suficientes para impedir a destituição. O risco imediato é a perda de apoio político, já que sua aprovação caiu para 36,4% e 57% da população indica falta de confiança.
O que aconteceu com Hayden Davis e a Kelsier Ventures após o colapso?
Davis negou que o colapso tenha sido intencional, afirmando que foi "um plano que deu errado", mas reconheceu ter custódia de US$ 100 milhões. A Kelsier Ventures está sob investigação na Argentina e nos EUA. Davis já havia sido relacionado à extração de liquidez do token $MELANIA com táticas semelhantes.
Conclusão
O escândalo do Libra tornou-se o caso mais documentado de conexão direta entre um presidente em exercício e um rug pull em criptoativos, com um rastro crescente de evidências. Sete ligações na noite do lançamento, um rascunho de pagamento de US$ 5 milhões e perdas confirmadas de US$ 251 milhões formam um quadro robusto para promotores, independentemente do calendário eleitoral. O caso traz um alerta específico: quando o principal atrativo de um token é o endosso político, o perfil de risco é diferente daquele de memecoins comuns, pois a saída do endossante pode ocorrer sem aviso. A resposta regulatória já se manifesta no Brasil e na Europa, e novos lançamentos políticos provavelmente serão avaliados à luz deste caso.
Este artigo tem fins informativos e não constitui recomendação financeira ou de investimento. O comércio de criptomoedas envolve riscos significativos. Faça sempre sua própria pesquisa antes de tomar decisões de negociação.






