O governo dos Estados Unidos detém aproximadamente 328.372 bitcoins, avaliados em cerca de US$ 25 bilhões nos preços atuais, sendo o maior detentor estatal conhecido de BTC no mundo. Esse montante é resultado de apreensões em casos criminais, e não de compras autorizadas pelo Congresso. Em março de 2025, o então presidente Trump assinou uma ordem executiva para criar uma Reserva Estratégica de Bitcoin, orientando órgãos federais a consolidar todos os BTC do governo sob gestão do Tesouro. Mais de um ano depois, essa estrutura ainda não recebeu aprovação do Congresso, e reportagens apontam que a ordem permanece "estagnada" por falta de respaldo legislativo.
A diferença entre a ação executiva e a realidade legislativa é maior do que muitos imaginam. Isso é relevante para qualquer pessoa que possua ou avalie uma posição em BTC, já que a diferença entre uma diretriz presidencial e uma lei determina a robustez dessa reserva.
O que a Ordem Executiva de Trump Criou
A ordem assinada em 6 de março de 2025 estabeleceu três diretrizes: o Tesouro deveria consolidar todos os bitcoins mantidos por órgãos federais em uma única Reserva Estratégica de Bitcoin; proibiu a venda de qualquer BTC dessa reserva (rompendo práticas anteriores de leilão do US Marshals Service); e orientou a criação de estratégias orçamentárias neutras para adquirir mais bitcoin, vedando a utilização de recursos públicos para novas compras.
A ordem também criou um "Estoque de Ativos Digitais" para outros criptoativos além do BTC, citando SOL, ADA, XRP e ETH junto do bitcoin no comunicado original da Casa Branca. Mas o foco operacional logo se concentrou no Bitcoin, dada sua liquidez, adoção institucional e histórico como reserva de valor. O governo passou a tratar o BTC como um ativo estratégico, semelhante ao ouro em Fort Knox.
Bo Hines, diretor de políticas de cripto da Casa Branca, descreveu publicamente a reserva como um "Fort Knox digital". Contudo, a analogia tem limites: o ouro é respaldado por leis federais e infraestrutura institucional de décadas, com auditorias, cofres físicos e supervisão congressual. Já a Reserva Estratégica de Bitcoin depende de uma ordem executiva que pode ser revogada pelo próximo presidente, evidenciando a diferença entre discurso e permanência legal.
Por que o Congresso Ainda Não Aprovou
Ordens executivas refletem a vontade do presidente em exercício, não têm força de lei permanente. Para que a Reserva de Bitcoin se torne política duradoura, o Congresso precisa aprovar legislação específica, detalhando sua estrutura e orçamento operacional. Isso não ocorreu por vários motivos interligados:
Agenda legislativa sobrecarregada. O 119º Congresso tem prioridades em reforma tributária, defesa e comércio. Um projeto de reserva de bitcoin, embora relevante, disputa espaço com pautas de maior impacto eleitoral. Presidentes de comissões não priorizaram o tema, e a dinâmica política dificulta avanços isolados.
Pouco apoio bipartidário no Senado. Lideranças republicanas apoiam a ideia, mas democratas permanecem céticos. A senadora Elizabeth Warren chamou a reserva de "presente para especuladores cripto" em audiência de fevereiro de 2026. Sem maioria de 60 votos para vencer uma obstrução, a legislação autônoma tem poucas chances.
O projeto de defesa é o caminho mais provável. Fontes no Congresso indicam que a Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) pode incluir a reserva em seu texto final no fim de 2026. A NDAA é aprovada anualmente e costuma reunir medidas que não teriam aprovação isolada. Se a linguagem sobre a reserva for incluída, ela pode virar lei; caso contrário, permanece como diretriz presidencial vinculada ao mandato atual.
O que Significa 328.372 BTC no Contexto Global
Nenhum outro Estado-nação se aproxima do volume dos EUA.
| País | BTC Estimado | Valor Aproximado |
|---|---|---|
| Estados Unidos | ~328.372 BTC | ~US$ 25 bilhões |
| China | ~190.000 BTC | ~US$ 14,5 bilhões |
| Reino Unido | ~61.000 BTC | ~US$ 4,7 bilhões |
| El Salvador | ~6.100 BTC | ~US$ 465 milhões |
| Alemanha | 0 BTC (vendido em 2024) | US$ 0 |
O caso da Alemanha é ilustrativo. O governo alemão vendeu, em julho de 2024, cerca de 50.000 BTC apreendidos, arrecadando aproximadamente US$ 3,5 bilhões. O BTC era negociado a cerca de US$ 58.000 na época e, quatro meses depois, superou US$ 100.000, fazendo com que a Alemanha perdesse cerca de US$ 2 bilhões em valorização potencial. O episódio virou exemplo citado por quem defende que governos mantenham, e não liquidem, reservas.
A posição dos EUA representa cerca de 1,56% do suprimento circulante total de BTC (aproximadamente 19,8 milhões de moedas). Se o governo vendesse parte desse montante no mercado, o impacto no preço seria relevante. A ordem que proíbe vendas evita esse potencial excesso de oferta, o que pode favorecer a estrutura de preços enquanto estiver em vigor.
O Desafio das Aquisições Orçamentárias Neutras
A ordem executiva determinou adquirir mais bitcoin sem usar fundos públicos, o que traz um desafio prático: como obter mais BTC sem comprar no mercado?
O estoque atual foi obtido por meio de apreensões criminais. Órgãos como o Departamento de Justiça, IRS e FBI confiscaram bitcoin em operações contra fraudes, hackers da Bitfinex e a Silk Road na última década. Porém, a quantidade de cripto apreendida é imprevisível e não oferece garantia de abastecimento futuro.
Bo Hines sugeriu a possibilidade de reavaliar certificados de ouro do Tesouro (registrados a US$ 42,22/onça, enquanto o valor de mercado supera US$ 3.000), usando o ganho contábil para adquirir BTC. Essa proposta gerou discussões, mas não avançou além da teoria. Reavaliar o ouro também demanda ação legislativa, criando uma dependência circular.
O resultado prático é que a reserva depende de futuras apreensões (irregulares) ou de aprovação do Congresso para um programa de aquisição financiado — o que remete ao impasse legislativo original.
O Que Acontece se o Próximo Presidente Discordar
Esse é um risco para quem acompanha o tema: uma ordem executiva pode ser revogada por qualquer presidente subsequente já no primeiro dia de mandato, inclusive determinando a liquidação das reservas de BTC.
A probabilidade disso depende do resultado da eleição de 2028 e do cenário regulatório de cripto até lá, mas a vulnerabilidade estrutural existe. O mercado que considera a reserva como política permanente sem reconhecer o vácuo legal assume um risco não consolidado.
Se o Congresso aprovar a reserva via NDAA ou legislação própria antes de janeiro de 2029, o risco praticamente desaparece — uma eventual liquidação exigiria nova lei. A diferença entre ação executiva e estatuto é a diferença entre preferência temporária e compromisso legal. No momento, a Reserva Estratégica de Bitcoin dos EUA é apenas a primeira.
O que a Reserva Significa para o Preço do BTC
O impacto da reserva estratégica se dá em dois níveis:
O efeito direto é a retirada de oferta. Com 328.372 BTC sob controle do governo e proibidos de venda, esse volume não chega ao mercado. Para comparação, o volume diário médio negociado em exchanges spot nos EUA é de 25.000 a 40.000 BTC. Todo o estoque do governo representa de 8 a 13 dias de volume. Se fosse liquidado, poderia causar pressão de venda e queda de 10–15% no curto prazo, conforme precedentes como a venda da Alemanha em 2024.
O efeito indireto é o sinal para outros governos. Quando a maior economia mundial classifica o bitcoin como ativo estratégico, normaliza o BTC como reserva internacional. Países como Brasil, Japão e Suíça consideraram propostas similares desde a ordem executiva, e as reservas de bitcoin de El Salvador vêm crescendo desde 2021. Um movimento global de acumulação reduziria ainda mais a oferta disponível, num cenário em que ETFs spot já absorvem de 1.000 a 2.000 BTC por semana.
Na prática, a existência da reserva é favorável ao BTC enquanto durar, mas sua permanência além de janeiro de 2029 depende de respaldo legal. Quem opera com base nessa narrativa deve monitorar de perto a agenda do Congresso.
Perguntas Frequentes
Quanto bitcoin o governo dos EUA detém atualmente?
Os EUA detêm cerca de 328.372 BTC, avaliados em US$ 25 bilhões, todos provenientes de apreensões criminais, não de compras.
Por que o Congresso não aprovou a Reserva Estratégica de Bitcoin?
O projeto enfrenta barreiras como agenda legislativa lotada, pouco apoio bipartidário e falta de mecanismo claro de financiamento. O caminho mais provável é via NDAA no fim de 2026.
O próximo presidente pode revogar a ordem executiva da reserva?
Sim. Ordens executivas podem ser revogadas já no primeiro dia do novo mandato. Só uma lei do Congresso tornaria a reserva permanente. Caso isso ocorra, a liquidação exigiria nova votação.
O que é o Estoque de Ativos Digitais?
A ordem executiva também criou um Estoque de Ativos Digitais para criptoativos não-bitcoin como ETH, SOL, XRP e ADA, provenientes de apreensões. Esse estoque segue regras distintas da reserva de Bitcoin e tem recebido menos atenção do governo, com o foco em BTC.
Conclusão
Os EUA detêm 328.372 bitcoins, classificados como reserva estratégica por ordem presidencial. No entanto, a ordem se apoia numa base que pode ser revogada por futuras gestões. A votação da NDAA no fim de 2026 é a próxima janela para tornar a reserva uma política permanente. Se aprovada, esses BTC passam a ser um ativo nacional respaldado por lei; se não, a política atual deve ser vista como um compromisso temporário. O calendário do Comitê de Serviços Armados do Senado neste outono definirá se a reserva será lei ou continuará sendo uma experiência temporária de quatro anos.
Este artigo tem caráter informativo e não constitui aconselhamento financeiro ou de investimentos. A negociação de criptomoedas envolve riscos relevantes. Sempre realize sua própria análise antes de tomar decisões.






