
O Bitcoin chegou a registrar uma breve queda abaixo de US$ 60.000 na sexta-feira, 5 de junho, antes de se recuperar para US$ 61.000 em um movimento de baixo volume no sábado. O volume de liquidações em 24 horas atingiu entre US$ 1,5 e US$ 1,6 bilhão, sendo cerca de US$ 1,21 bilhão provenientes de posições compradas (longs) encerradas em uma única sequência. O gatilho foi claro e direto: o relatório de empregos não agrícolas de maio apresentou um resultado de +172.000 vagas, acima do consenso da Bloomberg de 130.000, com a taxa de desemprego subindo apenas para 4,3%. O dado foi forte o suficiente para que a probabilidade de corte de juros em junho, segundo o CME FedWatch, caísse de 32% no início da semana para 8% no fechamento de sexta.
O excesso de posições compradas apostando antecipadamente em um corte de juros em junho foi surpreendido negativamente. Veja a seguir como a liquidação em cascata redefiniu os níveis de suporte do Bitcoin e o que a recuperação de sábado indica sobre os compradores ainda presentes.
Como a liquidação de US$ 1,5 bilhão aconteceu
A liquidação começou cerca de 90 segundos após a divulgação do relatório de empregos às 8h30 (horário de NY), conforme o Resumo da Situação de Emprego do BLS para maio de 2026. O BTC estava em US$ 62.400 antes do dado, com taxas de financiamento levemente positivas nas principais plataformas de contratos perpétuos e o interesse em aberto próximo ao maior nível das últimas duas semanas. O resultado de +172 mil vagas superou o consenso em 32%, houve revisão positiva no mês anterior e o salário médio por hora acelerou para 0,4% no mês. A reação de aversão ao risco foi imediata: o rendimento do título do Tesouro de dois anos saltou 12 pontos-base, o índice do dólar subiu 0,6% e o Bitcoin caiu abaixo de US$ 61.000 na primeira hora.
O motivo técnico para a intensidade da liquidação foi o excesso de alavancagem. Os dados de liquidação da CoinGlass mostraram cerca de US$ 1,21 bilhão em liquidações de posições compradas contra US$ 310 milhões de vendas forçadas de shorts — uma proporção de 4 para 1, indicando um posicionamento estruturalmente otimista antes do dado. Quando o BTC perdeu US$ 61.000, a primeira onda de stops foi ativada. Isso alimentou uma segunda onda até US$ 60.500. A terceira onda foi um breve movimento até US$ 59.800, que ocorreu em menos de dois minutos.
Fonte: Coinglass
O mercado à vista teve desempenho relativamente melhor que o de perpétuos, caracterizando uma liquidação motivada por alavancagem e não por um ajuste fundamental de preço. O CVD (Cumulative Volume Delta) à vista ficou estável ou levemente negativo durante a liquidação, enquanto o CVD dos perpétuos despencou. Essa divergência possibilitou a recuperação do Bitcoin para a zona dos US$ 61.000 em 18 horas, mesmo com baixo volume no sábado.
Por que o relatório de empregos forte mudou as expectativas sobre o corte de juros em junho
No início da semana, o mercado precificava cerca de 32% de probabilidade de corte de juros na reunião de 17-18 de junho. Isso já era pouco provável, mas o discurso de "pouso suave" mantinha a possibilidade aberta. O relatório de maio alterou esse cenário em três pontos:
Eliminou o argumento de desaquecimento do emprego. O resultado de +172 mil vagas, bem acima do consenso de 130 mil e com revisão positiva do mês anterior, não é compatível com um Fed preocupado com o mercado de trabalho. Powell já deixou claro que a orientação só muda para postura mais flexível caso o desemprego fique acima de 4,5% com média móvel de três meses abaixo de 100 mil vagas. O dado de maio foi na direção oposta.
Reativou o receio de inflação salarial. O ganho médio por hora subiu 0,4% no mês, o que anualizado equivale a cerca de 4,8% — bem acima dos 3,5% desejados pelo Fed para chegar à meta de 2% no PCE. Esse número não sustenta corte de juros.
Mudou o risco no gráfico de pontos (dot plot). A reunião de junho trará uma atualização das projeções econômicas. Após um relatório como esse, o mercado passou a considerar o risco de o ponto mediano passar de três cortes em 2026 para apenas dois, movimento visto como mais conservador, independentemente da decisão imediata sobre juros. Ativos de risco, como o Bitcoin, já precificaram essa mudança na sexta-feira.
O resumo é que o corte em junho praticamente saiu do radar, com setembro sendo a próxima reunião relevante. Isso significa um adiamento de três meses em relação ao que parte do mercado esperava, explicando a intensidade das liquidações.
Onde estão os suportes agora
O BTC está na faixa dos US$ 61.000 no sábado à noite. Os principais níveis de suporte são:
US$ 60.000 é o suporte imediato, testado na sexta-feira. Um novo teste que se sustente reforça o nível; se romper, abre caminho rapidamente para US$ 58.000.
US$ 58.000 é um suporte estrutural: mínima de abril de 2026 e base da faixa em que o BTC se encontra desde a correção de março. Fechamento abaixo desse nível invalida o range e pode levar até a zona dos US$ 55.000.
US$ 55.000 é a média móvel de 200 dias e o último suporte relevante antes da tendência de longo prazo; também é o ponto de custo dos detentores de curto prazo segundo a Glassnode, que historicamente funciona como imã durante correções profundas. O guia mais amplo de Fluxos de ETF de Bitcoin cobre como o fluxo spot influenciado por alocadores interage com esses níveis técnicos durante reprecificações macroeconômicas.
A recuperação tem leitura mais simples: US$ 63.500 é a resistência que limitou o repique de sábado. Recuperar esse nível com taxas de financiamento positivas seria sinal de que a liquidação foi pontual, não o início de uma queda mais profunda. Caso contrário, o caminho mais provável é de volta para US$ 60.000 e depois US$ 58.000.
O que significa a recuperação do fim de semana
Os volumes de fim de semana geralmente são baixos. A recuperação do sábado, de US$ 59.800 para US$ 61.000, ocorreu com apenas 40% do volume dos dias úteis. Isso pode ser interpretado de duas formas:
A leitura positiva é que, mesmo com volume baixo, houve participantes dispostos a comprar no fundo da liquidação. Isso sugere acúmulo à vista por quem não estava alavancado e viu a oportunidade como desconto. Os fluxos de ETF de Bitcoin na semana foram levemente positivos, mesmo na sexta-feira, o que reforça essa tese.
A leitura negativa é que repiques em baixo volume após liquidações de alavancados costumam ser testados novamente antes de uma recuperação real. Os pregões de domingo e segunda, com a reabertura das mesas institucionais e necessidade de hedge das opções semanais, serão decisivos para saber se o suporte se manterá. Além disso, o mercado aguarda o dado de inflação CPI de terça-feira (10 de junho), próximo evento macroeconômico relevante.
Traders experientes em Bitcoin reconhecem esse padrão: primeiro vem a liquidação, depois o reteste do suporte em 48-72 horas, e só então a tendência se confirma ou é invalidada. O momento atual é o de reteste.
Perguntas frequentes
Por que o Bitcoin caiu tanto com apenas um relatório de empregos?
Porque o mercado estava fortemente posicionado em longs antecipando corte de juros. As taxas de financiamento estavam positivas, o interesse em aberto era alto e a tese dominante era de redução de juros em junho. O resultado de +172 mil vagas destruiu essa narrativa rapidamente, levando a três ondas de liquidações. O tamanho do movimento refletiu o posicionamento, não apenas o dado em si.
O trade de corte de juros acabou ou só foi adiado?
Foi adiado, não encerrado. Em junho, a probabilidade de corte é de apenas 8%, mas para setembro a chance estimada é de 65% para ao menos 25 pontos-base de redução. O argumento estrutural para cortes permanece válido; o mercado só terá de esperar mais três meses.
Qual o suporte mais relevante se US$ 58.000 for perdido?
O próximo suporte importante é US$ 55.000, que corresponde à média móvel de 200 dias e ao custo dos detentores de curto prazo. Abaixo disso, a região entre US$ 52.000 e US$ 53.000, zona de consolidação de fevereiro, seria o novo piso técnico. Perder US$ 55.000 sinalizaria uma mudança de tendência para baixa no médio prazo.
O que a recuperação de sábado comprova de fato?
Que ainda há compradores atuando a partir de US$ 60.000. Não garante, porém, que a liquidação chegou ao fim. O teste real será nas sessões de segunda e terça, com o retorno do fluxo institucional e o dado de inflação. Se US$ 61.000 se mantiver, a liquidação terá sido apenas um ajuste. Se perder esse nível, o próximo suporte é US$ 58.000.
Considerações finais
A liquidação de US$ 1,5 bilhão em posições compradas foi resultado de um ajuste de cenário macroeconômico e não de mudança estrutural na tese de investimento em Bitcoin. O relatório de empregos forte reduziu drasticamente a expectativa de corte de juros em junho, provocando liquidações e levando o BTC de volta à faixa entre US$ 58.000 e US$ 63.500. O repique de sábado devolveu o preço para US$ 61.000 com volume reduzido, sinal positivo, porém não conclusivo. O teste será nos próximos pregões e com o dado de inflação de 10 de junho. Se o suporte dos US$ 60.000 se mantiver, a liquidação pode ser vista como oportunidade; se perder US$ 58.000, o próximo nível passa a ser US$ 55.000.
Este artigo tem finalidade apenas informativa e não constitui recomendação financeira ou de investimento. A negociação de criptomoedas envolve riscos relevantes. Sempre faça sua própria pesquisa antes de tomar decisões de negociação.






