Entre o final de fevereiro e final de abril de 2026, o Bitcoin subiu cerca de 20%, de US$ 65.000 para US$ 79.000. Segundo Matt Hougan, CIO da Bitwise, a principal força por trás dessa alta tem nome: a Strategy (antiga MicroStrategy), presidida por Michael Saylor, que adquiriu US$ 7,2 bilhões em BTC nesse período de oito semanas. Hougan classificou esse movimento como “o maior fator isolado” para a valorização, o que é confirmado por dados on-chain.
O mecanismo central foi o STRC, uma ação preferencial perpétua com rendimento anual de 11,5% que atraiu bilhões de dólares de investidores focados em renda fixa em um cenário global de juros baixos. A revista Fortune destacou que "um bilionário pode estar alimentando boa parte da alta". A questão relevante para os investidores é o que acontece caso esse ritmo de compras diminua.
Como se deram as compras de US$ 7,2 bilhões em 8 semanas
A Strategy não comprou esse volume de Bitcoin com caixa operacional. O segmento de software da empresa gera receita insuficiente para isso. O capital veio principalmente pela emissão do STRC e por ofertas públicas de ações.
O STRC, lançado em meados de 2025, é um título preferencial perpétuo que paga um rendimento anual de 11,5%, distribuído mensalmente. Em um ambiente em que bonds high yield tradicionais pagam menos de 7%, o STRC, lastreado por US$ 40 bilhões em Bitcoin, atraiu forte demanda. O STRC se tornou a maior ação preferencial do mundo em nove meses, chegando a US$ 8,5 bilhões emitidos.
Na prática, investidores compram STRC para se expor a renda fixa com potencial indireto de valorização do Bitcoin. A Strategy utiliza o dinheiro captado e compra BTC no mercado. O Bitcoin integra o balanço, o preço das ações reflete essa posição e os dividendos do STRC vêm da receita de software e vendas de ações ordinárias. Enquanto houver demanda por STRC, a máquina de compras segue ativa.
Entre final de fevereiro e abril, esse motor operou com intensidade. Só nos quatro primeiros meses de 2026, a Strategy comprou cerca de 77.000 BTC, com maior volume justamente nas oito semanas em destaque. A compra mais recente foi de 3.273 BTC por US$ 255 milhões, a um preço médio de US$ 77.906, elevando as reservas da empresa a 818.334 BTC, custo total de US$ 61,81 bilhões.
Por que outras empresas recuaram
A compra massiva da Strategy se destaca ainda mais porque as demais empresas reduziram quase totalmente suas aquisições. Dados da CryptoQuant mostram que, nas últimas 30 dias, todas as tesourarias corporativas (exceto a Strategy) compraram apenas 1.000 BTC, queda de 99% ante o pico de 69.000 BTC em agosto de 2025.
Hoje, a Strategy detém cerca de 75% do total de Bitcoin sob controle de empresas de capital aberto. De todas as empresas, três quartos do Bitcoin estão em um único balanço.
O recuo é generalizado. Organizações que em 2025 seguiram a estratégia de emitir ações ou dívida conversível para comprar BTC, recuaram. Entre os motivos: restrições de balanço, mercados mais cautelosos, limites internos de risco e postura de esperar os próximos movimentos. O efeito prático: só uma empresa segue comprando.
A japonesa Metaplanet, apelidada de "MicroStrategy da Ásia", é exceção parcial. Adquiriu 5.075 BTC no primeiro trimestre de 2026 (US$ 398 milhões), chegando a cerca de 40.177 BTC e superando temporariamente a Tesla. Mesmo assim, esse ritmo é insignificante perto do volume da Strategy.
| Empresa | BTC em balanço (aprox.) | % do Bitcoin corporativo |
|---|---|---|
| Strategy | 818.334 | ~75% |
| Metaplanet | ~40.177 | ~3,7% |
| Tesla | ~9.700 | <1% |
| Outras | ~225.000 | ~21% |
O que o mecanismo STRC significa para o preço do BTC
O argumento de Hougan vai além do impacto no preço. Ele aponta que o STRC tem efeito estrutural de longo prazo: com os preços atuais, o "colchão" de BTC da Strategy supera US$ 40 bilhões em valor não realizado. Isso dá confiança aos investidores quanto à sustentabilidade do dividendo de 11,5%, mantendo alta a demanda pelo STRC e, consequentemente, as compras de Bitcoin.
Hougan estima espaço para mais US$ 10 a US$ 15 bilhões em emissões do STRC antes de saturação. Se isso se concretizar, as compras podem continuar "por mais algum tempo".
No cenário atual, portfólios de pensão, endowments e fundos de renda encontram poucas opções que paguem 11,5% ao ano com lastro em ativos reais. Fundos de crédito privado normalmente têm baixa liquidez, já o STRC é negociado em bolsa. Para quem busca rendimento e aceita a volatilidade indireta do Bitcoin, o produto preenche uma lacuna.
O risco de concentração
O cenário favorável do STRC é claro, mas o risco de concentração também merece atenção.
Se 75% da demanda por Bitcoin corporativo está em uma única empresa, sustentada por um único instrumento, todo o movimento depende do STRC. Traders devem considerar esses fatores antes de tomar decisões.
Se a demanda pelo STRC cair: Alta de juros, queda do BTC ou saturação podem reduzir novas emissões, diminuindo o ritmo de compras da Strategy — que é hoje o maior comprador marginal do mercado.
Se o BTC cair abaixo do custo médio da Strategy: O preço médio da Strategy é de cerca de US$ 75.500 por BTC. Uma queda sustentada abaixo disso pode abalar a confiança no STRC, reduzir emissões e, por reflexo, impactar o preço do BTC.
Mudanças regulatórias ou contábeis: O Bitcoin é registrado a valor justo conforme normas FASB de 2025. Mudanças regulatórias ou contábeis podem limitar emissões futuras, embora esse seja um risco pouco provável no curto prazo.
Em resumo, a alta recente do BTC tem forte dependência de um único comprador. Isso não é necessariamente negativo, mas significa que a sustentabilidade da alta depende de fatores específicos.
Comparação com fluxos de ETFs
Alguns argumentam que os ETFs de Bitcoin à vista também trouxeram fluxos relevantes no mesmo período. ETFs dos EUA registraram cerca de US$ 3,7 bilhões em entradas líquidas em oito semanas, com o IBIT da BlackRock liderando sessões isoladas com US$ 214 milhões.
Comparando diretamente, a Strategy comprou US$ 7,2 bilhões, quase o dobro dos ETFs somados. Além disso, ETFs têm base e motivações diversificadas, enquanto a Strategy concentra sua atuação e financiamento em um único mecanismo.
Alex Thorn, da Galaxy Research, projeta que a Strategy pode ultrapassar a estimativa de 1,1 milhão de BTC de Satoshi Nakamoto em dois anos, se mantiver o ritmo. A empresa está a 181.666 moedas desse marco; no ritmo atual, isso levaria cerca de seis trimestres.
Perguntas frequentes
Como a Strategy financiou as compras de BTC?
Principalmente com o STRC (ações preferenciais perpétuas com rendimento de 11,5% ao ano) e ofertas públicas de ações. O STRC captou US$ 8,5 bilhões em nove meses. Os recursos vão para compras de BTC no mercado.
A alta é sustentável sem as compras da Strategy?
Essa é a questão central. Os ETFs trouxeram US$ 3,7 bilhões no mesmo período, metade do volume da Strategy. Caso o ritmo da empresa caia por saturação do STRC ou queda do BTC, o mercado precisará de novos compradores para manter a tendência. A concentração do comprador marginal é alta.
O que acontece se o BTC cair abaixo do custo médio da Strategy?
O custo médio é cerca de US$ 75.500 por BTC. Uma queda prolongada pode minar a confiança dos investidores no STRC e limitar novas emissões. A empresa nunca vendeu BTC e afirma não ter intenção de fazê-lo, mas a redução de emissões é o principal risco estrutural.
Quanto mais BTC a Strategy pode comprar?
Estima-se espaço para mais US$ 10 a US$ 15 bilhões em STRC, o que, aos preços atuais (~US$ 78.000/BTC), representa de 128.000 a 192.000 moedas adicionais — suficiente para mais 12 a 18 meses de compras.
Considerações finais
A alta de 20% do BTC, de US$ 65.000 para US$ 79.000, foi impulsionada principalmente por uma empresa, via STRC, que oferece rendimento de 11,5% a investidores dispostos a aceitar exposição indireta ao BTC. A Strategy detém 818.334 BTC, cerca de 75% de todo o Bitcoin corporativo, e pode ampliar ainda mais sua posição se houver demanda.
O ponto de atenção é US$ 75.500: acima desse nível, a engrenagem do STRC segue firme; abaixo, aumenta o risco de reflexo negativo. A questão para o mercado é: um ativo de US$ 1,5 trilhão pode sustentar uma alta calcada em um único comprador, ou será preciso que outros participantes entrem para o próximo movimento?
Este artigo tem caráter meramente informativo e não constitui recomendação financeira ou de investimento. A negociação de criptomoedas envolve riscos. Sempre faça sua própria pesquisa antes de tomar decisões.





